Um dia ensolarado logo se tornou um vendaval. As árvores começaram a chacoalhar, galhos fracos se quebravam e folhas velhas eram levadas a cada sopro do vento. Por algum motivo, aquilo me pareceu mais do que uma simples mudança no tempo. Me pareceu um sinal.
Há algo nas tempestades que anuncia mudanças. Elas chegam, movimentam o que estava parado, derrubam aquilo que já não tinha força para permanecer e levam consigo o que estava velho. Antes de uma nova estação, alguma coisa precisa cair.
Talvez seja assim também com os ciclos da vida e da história. Há estruturas que permanecem não porque ainda sejam fortes, mas porque nos acostumamos a vê-las de pé. Há ideias que sobrevivem não porque ainda respondam ao presente, mas porque durante muito tempo pareceram impossíveis de substituir. Até que o vento muda.
Hoje, o país atravessa mais um desses momentos. E talvez o mais importante não seja apenas aquilo que está deixando de existir, mas aquilo que decidiremos construir depois que cair. Uma eleição pode encerrar um ciclo, mas não constrói o próximo sozinha. A mudança verdadeira começa quando uma sociedade deixa de apenas esperar pelo novo e passa a exigir, construir e sustentar aquilo que deseja ver nascer.
Talvez os ventos que hoje sopram anunciem o fim de um ciclo. Talvez sejam apenas o começo de outro. Ainda não sabemos quais flores nascerão depois da tempestade.
Mas algumas folhas precisavam cair.
DFA
Eugène Laermans — Storm, 1899
