Talvez exista uma solidão particular em desejar aquilo que ninguém ao nosso redor consegue compreender. Antes de ser conquista, o desejo pode ser apenas uma imagem na cabeça, uma vontade difícil de explicar, às vezes até para nós mesmos. Queremos alguma coisa e, antes de perguntar se aquilo nos fará felizes, existe uma pergunta mais silenciosa: será que podemos ter? Talvez seja por isso que o desejo esteja tão próximo do poder. Depois de satisfeitas as necessidades que nos mantêm vivos, grande parte daquilo que passamos a querer nasce do mundo que encontramos. Aprendemos o que é belo, o que é valioso, o que merece admiração. Aprendemos quais vidas parecem grandes e quais parecem pequenas. Transformamos desejos coletivos em desejos particulares e, pouco a pouco, esquecemos de onde eles vieram. Mas, de tempos em tempos, alguém deseja além daquilo que lhe foi ensinado a desejar. E existe algo quase cruel nisso. Desejar antes que os outros reconheçam o valor daquilo que você deseja significa aceitar a possibilidade de parecer louco, excessivo, arrogante ou simplesmente errado.

O conflito talvez seja inevitável. Toda conquista começa, de alguma maneira, diante de uma resistência. E talvez seja justamente essa resistência que dê valor à conquista. Porque possuir alguma coisa que todos acreditavam que você poderia ter é diferente de conquistar aquilo que ninguém imaginava que pudesse pertencer a você. A conquista não é apenas o momento em que conseguimos tocar o objeto do nosso desejo. É o instante em que uma possibilidade deixa de existir apenas dentro de nós e passa a existir diante dos outros. E então acontece algo estranho. Aquilo que parecia absurdo começa a parecer possível. O que parecia excessivo começa a parecer desejável. Alguém olha para aquilo que você conquistou e, talvez pela primeira vez, imagina que também poderia querer aquilo.

O seu desejo, que antes parecia exclusivamente seu, começa a pertencer ao mundo. Talvez seja assim que mudamos uns aos outros sem perceber. Somos formados pelos desejos daqueles que vieram antes de nós, mas também deixamos para os que virão uma espécie de mapa daquilo que pode ser desejado. Algumas pessoas conquistam dinheiro. Outras, poder. Outras, conhecimento, reconhecimento, liberdade ou simplesmente uma vida que não parecia disponível para elas. Mas talvez a conquista mais profunda seja outra: fazer existir uma possibilidade que antes não existia para ninguém. Existe algo de belo e também de triste nisso. Porque aquele que deseja primeiro precisa carregar sozinho o peso de acreditar em alguma coisa antes que ela seja reconhecida.

Talvez seja esse o preço da ruptura. Primeiro, você deseja aquilo que o mundo não entende. Depois, conquista aquilo que o mundo não acreditava ser possível. E, quando finalmente olham para você, talvez já não entendam que um dia aquilo foi apenas um desejo. Tornou-se referência. Tornou-se possibilidade. Tornou-se desejo de alguém que nunca saberá que começou em você. Talvez seja assim que o desejo atravessa uma vida e continua depois dela: não pela coisa que conquistamos, mas pela fronteira que conseguimos deslocar para que outra pessoa pudesse desejar um pouco mais longe.

 

D.F.A.

🎨 Henry Wyatt -  Portrait Of A Young Man