"Hades e Dionísio são o mesmo."
— Heráclito
Claro que falar da vida boêmia é falar de moda. É falar dos lugares onde o prazer e o reconhecimento do belo se encontram, transformando desejos em símbolos e símbolos em objetos. Marcas nascem desse movimento, assim como narrativas, lembranças e estéticas que o tempo decidirá preservar ou esquecer. Mas a minha investigação não começa aí. Existe algo mais antigo que parece habitar por trás dessas manifestações. Algo que remonta a um período anterior ao próprio Homero, anterior às narrativas que moldaram a nossa compreensão da Grécia e de seus deuses. Dionísio já estava presente. Seu nome aparece em registros que antecedem em séculos a literatura clássica, como se sua presença fosse mais profunda que as próprias histórias que chegaram até nós.
Foi justamente isso que despertou minha curiosidade. Por que Dionísio? Entre tantas divindades do Olimpo, por que justamente ele continua exercendo um fascínio tão singular? A resposta mais comum parece insuficiente. O deus do vinho. O deus da festa. O deus da embriaguez. Quanto mais me aproximo de sua figura, mais essas definições me parecem tocar apenas a superfície do problema. O vinho certamente possui importância, mas talvez não como fim. Talvez como símbolo.
Afinal, existe algo curioso na relação que os homens possuem com a bebida. Sentamos para beber quando nasce um filho e também quando um ente querido morre. Bebemos para celebrar vitórias, mas também para suportar despedidas. O mesmo gesto acompanha os momentos mais luminosos e os mais sombrios da existência. O vinho está presente quando algo começa e quando algo termina. Isso me faz suspeitar que ele jamais tenha sido apenas um instrumento do prazer. Talvez tenha sido, desde o início, um símbolo da transformação.
E é justamente aqui que a frase de Heráclito começa a me perseguir. "Hades e Dionísio são o mesmo." Durante muito tempo a interpretei como um enigma religioso. Hoje me pergunto se ela não aponta para algo ainda mais profundo. Talvez vida e morte não sejam opostos absolutos. Talvez sejam apenas estados diferentes de um mesmo fluxo. O nascimento caminha em direção à morte. A morte abre espaço para novos nascimentos. O fruto torna-se vinho. A juventude torna-se velhice. Nada permanece exatamente aquilo que era. Tudo está submetido à transformação.
Talvez seja por isso que Dionísio ocupe uma posição tão singular entre os deuses. Os olímpicos parecem existir como expressões perfeitas de suas próprias naturezas. Hera é eternamente Hera. Ares permanece Ares. Afrodite jamais deixa de ser Afrodite. Apolo continua sendo a medida, a forma e a razão. São perfeitos justamente porque são imutáveis. Mas talvez exista uma limitação escondida dentro da própria perfeição. Os deuses não envelhecem. Não se transformam. Não experimentam a urgência do tempo. Não vivem sob a ameaça da perda. Cada um deles existe como uma representação infinita de sua própria sina.
Dionísio, porém, parece escapar dessa condição. Filho de uma mortal, ele carrega consigo algo que os outros deuses jamais poderão possuir integralmente. Não apenas a mortalidade, mas tudo aquilo que nasce dela: o risco, a intensidade, a mudança, a possibilidade de tornar-se outra coisa. Enquanto os demais deuses representam estados concluídos, Dionísio representa a passagem entre estados. Ele é a ponte entre mundos aparentemente inconciliáveis. Entre o humano e o divino. Entre a razão e o instinto. Entre a ordem e o caos. Entre a vida e a morte.
Talvez seja justamente por isso que sua presença seja tão importante dentro do próprio Olimpo. Não porque ele tenha abandonado sua condição mortal para tornar-se semelhante aos deuses, mas porque levou aos deuses algo que lhes faltava. Sua imprevisibilidade rompe a monotonia da perfeição. Sua existência recorda que a realidade não é feita de formas estáticas, mas de movimento. Não de estados permanentes, mas de transformações contínuas.
Quanto mais reflito sobre Dionísio, menos o vejo como o deus do vinho. O vinho é apenas uma de suas máscaras. O que ele realmente parece representar é algo muito mais fundamental: a força que conduz todas as coisas de um estado para outro. A potência que faz o homem tornar-se diferente de si mesmo. A energia que atravessa nascimento e morte, construção e ruína, alegria e sofrimento. Talvez Heráclito estivesse certo. Talvez Dionísio e Hades sejam o mesmo porque ambos habitam as margens da transformação. E talvez seja por isso que, entre todos os deuses do Olimpo, Dionísio seja aquele que mais se aproxima da própria condição humana.
D.F.A.
É necessário estar sempre bêbado! Tudo se reduz a isso: eis o único problema. Para não sentires o fardo horrível do tempo, que vos bate e vos faz pender para terra, é preciso que vos embriagueis sem cessar. Mas – de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, como achares melhor. Contanto que vos embriagueis. E, se algumas vezes, nos degraus de um palácio, na verde relva de um fosso, na desolada solidão do vosso quarto, despertardes, com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, perguntai ao vento, á vaga, á estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a todo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhes que horas são; e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio, hão de responder: - É a hora de embriagar-se! Para não serdes os martirizados escravos do tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem tréguas! De vinho, de poesia ou de virtude, como achares melhor.
Charles Baudelaire – Pequenos poemas em prosa
🎨José Malhoa - Os BêbadosJosé Malhoa - Os Bêbados
CharlesCharles Baudelaire – Pequenos poemas em prosa Baudelaire – Pequenos poemas em prosa
